terça-feira, fevereiro 07, 2006

Evangelização no Mercado Pós Moderno


Por Robson Ramos (Equipe Kerigma)

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Extraído e adaptado do livro Evangelização no Mercado Pós Moderno, publicado pela Editora Ultimato.

Para maiores informações sobre o livro consulte o site: www.robsonramos.com.br
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Um dos meus melhores amigos — que não se considera cristão — me disse que às vezes se surpreende pensando que, se Deus existe, não deve gostar da banalização que é feita do seu nome. Um conhecido colunista da mais lida revista semanal do país reclamou da superexposição do sagrado em nossa cultura. “Menos deus, por favor” foi o seu desabafo.1 É um alerta. Não é à toa que o segmento dos não-religiosos está entre os que mais cresceram na década de 90.

Qualquer reflexão ou ação evangelizadora, transcultural ou não, deve levar em consideração as mudanças que estão acontecendo ao nosso redor e que afetam a todos nós, assim como as instituições, sejam elas eclesiásticas ou não, nas quais estamos envolvidos.

Vivemos num mundo de extremas transformações, que afetam todos os aspectos da nossa existência. Temas como pós-modernidade e globalização podem não evocar sentimentos muito confortáveis. Mas não podemos ignorar os seus efeitos, se desejamos nos manter responsavelmente engajados no projeto de levar o evangelho até os confins da terra.

A influência que este momento extraordinário exerce sobre o modo como vivemos, trabalhamos e comunicamos as Boas Novas de Jesus Cristo representa um desafio singular para a Igreja. Mais do que isso está reestruturando a vida daqueles que pretendemos alcançar com o Evangelho, assim como as instituições formadoras de opinião.

Neste breve artigo não podemos deixar de fazer alguns registros que sirvam de parâmetro para nossa reflexão sobre a evangelização. Partimos do pressuposto de que as forças da pós-modernidade e globalização, por assim dizer, estão presentes na vida política, tecnológica, cultural, econômica e religiosa; e essas forças afetam direta ou indiretamente sistemas políticos, tradições, valores, formas de pensar e agir, gostos — enfim, a vida da maior parte das pessoas.

Essas forças afetam também as instituições, sejam elas governamentais ou não, privadas ou religiosas. Desse modo, no início deste novo milênio, a Igreja precisa repensar o seu papel e reavaliar as suas práticas.

Esta sensação de fragilidade que experimentamos é também um reflexo da inadequação das instituições que, até o momento, serviram de referência. Precisamos reconstruí-las a partir do resgate de parâmetros encontrados nas Escrituras e na história da Igreja.

Quem é a pessoa que queremos impactar com as boas novas de Jesus Cristo, no início do terceiro milênio?

Segundo um filósofo contemporâneo, “o homem moderno é o que experimenta a sensação do estranho, não tem certezas estabelecidas, apenas dúvidas”.2 A cada dia, somos levados a conviver com novas tecnologias. Vivemos como nômades, exilados do único lar que conhecíamos. Uma das características desta época é o não-pertencimento, representado pelos “sem-lar”, a exemplo do filho pródigo, que, após ter saído de casa, passou a viver “num lugar distante” (Lc 15.11-32).

A sociedade que adentra o terceiro milênio é cativa da visão pós-moderna que nada vê além da fragmentação e que, como um barco sem rumo afirma a “dissolução da totalidade, do grande relato, da interpretação abrangente e histórica”.3

Como é a paisagem religiosa no início do terceiro milênio?

Ao contrário do que foi apregoado pelos profetas da modernidade, as sociedades modernas não decretaram o fim da religião mas viram surgir uma recomposição do campo religioso. Longe do controle e tutela institucionais, abriram-se novos espaços para a multiplicação de formas originais de crença.

Por um lado, a religião é relegada a um lugar secundário na sociedade. Por outro, cresce o interesse e a demanda por temas e práticas de caráter espiritual, nas formas mais variadas e diversas possíveis. Este processo — que acontece sem que possa ser controlado pelas instituições religiosas legitimadoras das crenças — é facilmente observado pela multiplicação de símbolos e discursos religiosos que formam esse sincretismo religioso que vemos por toda parte.

Num contexto fértil como este, em que testemunhamos diariamente a emergência de formas inesperadas de sociabilidade religiosa, é preciso buscar e explorar novos rumos que permitam que ações evangelizadoras criem raízes e se concretizem de forma dinâmica.

Quaisquer esforços voltados para a Evangelização, seja numa conversa informal com alguém ou numa programação ou evento deve refletir uma atenção para esta realidade, ou seja, para o fato de que a maior parte das pessoas, especialmente aquelas com um grau maior de esclarecimento, não valoriza ou têm interesse em saber se existe uma Verdade Absoluta. Essa geração não está procurando “a” verdade. Ela está em busca do que é genuíno e autêntico. Longe de querer prestar atenção em nosso discurso já trivializado e inócuo as pessoas apenas querem saber e ver se a experiência cristã, seja em termos individuais ou comunitários, é de fato real.

As pessoas hoje em dia não querem saber de gente que fique lhes dizendo o que elas têm de acreditar ou aceitar como verdade. Aqueles que se apresentam de maneira arrogante, como detentores da verdade são vistos de forma suspeita.

O envolvimento ou participação na comunidade (igreja) deve ser encorajado e visto como essencial no processo de decisão de alguém que esteja considerando a Fé cristã. A exposição pessoal e interação com grupos pequenos e eventos informais devem ser estimuladas. Assim, o processo de conversão de um indivíduo é mais influenciado pelas relações comunitárias do que por uma relação “pessoa-a-pessoa” (o “evangelizador” e o “evangelizado”). As pessoas precisam poder observar e experimentar o amor de Jesus mais do que receber informações sobre esse amor. Para isso é preciso haver autenticidade no que falamos ou fazemos.

Nossos esforços nessa área devem priorizar a atuação de comunidades inclusivas, que recebam as pessoas e dar a elas a oportunidade de observar, do seu próprio jeito, a realidade da Fé cristã. Especialmente nos dias atuais a apresentação do Cristianismo não está nessas pirotecnias “Gospel” que vemos por toda parte, “Marchas para Jesus” ou programas de TV recheados de emotividade e clichês religiosos que não dizem nada. De fato, o que temos observado é um número crescente de pessoas, dentre elas muitos formadores de opinião, querendo distância de tudo e qualquer coisa que “cheire a coisa de Evangélico ou Gospel”. Há poucos dias um dos jornais de maior circulação do país trouxe uma importante matéria sobre o processo de secularização da Europa. Dentre outras coisas o articulista chama atenção para o testemunho de um jovem pintor checo e cantor de um grupo de rock que costuma se apresentar em igrejas. Frustrado com o estado da igreja presente em seu país, ele diz: “Jesus transformou água em vinho, mas os cristãos o transformaram de novo em água.”4

Nossas atividades evangelizadoras só terão efeito realmente duradouro se estiverem associadas a uma comunidade acolhedora que alcança o necessitado, o aflito e também dá espaço para pessoas que estão buscando uma experiência espiritual. Precisamos pensar seriamente sobre isso e fazer de nossas igrejas estruturas menos constrangedoras que permitam ao indivíduo, que esteja buscando e observando, permanecer sem se sentir pressionado pelo ambiente.

Aqueles que se interessam pela evangelização devem prestar atenção ao cenário que se forma, no qual os atores são as ovelhas sem pastor que estão sendo “tatuadas pelas complexidades” dos dias em que vivemos. E, em dias como estes, devemos tomar todos os cuidados para que haja entre nós motivo ou razão para que aqueles que nos observam venham a desdenhar de nós e se distanciar dos caminhos de Deus.

Notas

1. MAINARDI, Diogo. Menos deus, por favor. Veja, São Paulo, 11 jun. 2003, p. 127.

2. BORNHEIM, Gerd. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 jul. 1995.

3. IANNI, Octavio. A sociedade global. Boletim do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião (Pontifícia Universidade Católica), São Paulo, [ANO, Nº], p. 180-181.

4. Ian Buruma. Caderno ALIÁS, Jornal O Estado de São Paulo, 15 de janeiro de 2005, J5.

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Quadro: Mercado de Noche, Nahulá - por Victor Vasquez Temó

4 Comments:

Anonymous Paulo Brabo said...

A análise das contradições e dificuldades da condição pós-moderna me interessaram, mas as soluções propostas bem menos.

Não li o livro, mas todas as soluções propostas neste trecho baseiam-se na atividade de comunidades - comunidades vistas aqui em oposição a indivíduos.

No meu diagnóstico, as pessoas desconfiam das relações comunitárias ainda mais do que da relação pessoa-a-pessoa, e com algum fundamento. A ojeriza pelo crente/evangélico/gospel é tamanha e tão justificada que por mais inclusiva que seja a comunidade a maior parte da gente sensata vai esforçar-se para manter-se longe dela enquanto for possível.

A "evangelização" no momento pós-moderno tem a meu ver de ser, invariavelmente, pós-moderna. Ou seja: assistemática, fragmentária, holística (no sentido de abranger todas as facetas da existência), mais emocional/espiritual do que racional/argumentativa.

Hoje em dia faz mais sentido contar histórias do que expor argumentos infalíveis. Ir com o amigo ao cinema ou a um pesque-pague do que abrir o livrinho com as quatro leis espirituais. Silenciar e permanecer ao lado do que falar pelos cotovelos e sumir imediatamente da vida do sujeito depois de desincumbir-se da tarefa de vender a nossa enciclopédia salvífica. Trata-se por certo mais de trazer o Reino para perto das pessoas do que tentar arrastá-las para onde afirmamos que o Reino está confinado.

Esta última frase explica a minha descrença na eficácia de comunidades; mesmo quando são inclusivas, tudo que podemos fazer dentro dessa abordagem é *trazer* as pessoas para dentro delas. E, qualquer que seja o destino da mensagem do Reino, está fora das portas.

qua fev 08, 08:12:00 PM  
Blogger Equipe Kerigma said...

Prezado Paulo,

Muitissimo obrigado pelo seu contato e comentários. De fato acredito que pensamos da mesma forma.

O texto colocado no blog da Kerigma é uma versão editada, com partes do livro.

Numa parte que está no livro (e que não entrou no texto do blog) , argumento (e concordando com você, porém usando outras palavras) em favor do "Evangelismo narrativo" ...colocando nossa história no contexto da história de Deus, e vice-versa. Diz lá no texto:

"Quando usamos o recurso da narrativa no contato com as pessoas próximas a nós (que é o trabalho pessoal em favor do qual você argumenta, e com razão) estamos criando um ambiente (pessoal, numa relação a dois ou mais) ambiente de plausibilidade para a Fé cristã, ao invés de defender a priori sua credibilidade."

"A narrativa que a comunidade cristã adota é a história centrada na vida de Jesus."

"O que funcionava há dez anos atrás - em termos de comunicação do Evangelho - já não tem o mesmo efeito hoje. Em outras épocas o evangelismo girava em torno do esforço para convencer - cognitivamente - as pessoas a respeito da verdade do Evangelho."

"Devemos nos dar conta de que as pessoas querem dialogar. As pessoas hoje não querem saber de gente que fique lhes dizendo o que elas têm de acreditar ou aceitar como verdade. Aqueles que se apresentam de maneira arrogante, como detentores da verdade, são vistos de forma suspeita."

Enfim, esses são alguns trechos nos quais realço a necessidade do contato pessoal também, de sair do gueto religioso e entrar nos outros espaços para estabalecer novos contatos, etc.

Estou de pleno acordo com o que você escreveu, especialmente da frase no final:

"Trata-se por certo mais de trazer o Reino para perto das pessoas do que tentar arrastá-las para onde afirmamos que o Reino está confinado."

Mais uma vez agradeço por ter escrito. E agora vou conhecer o seu site!

Abraço,

Robson

qui fev 16, 09:01:00 PM  
Blogger Equipe Kerigma said...

Robson da glória,

Obrigado por sua prontíssima resposta. Sua mensagem esclarece que pensamos de forma semelhante e me dá ainda maiores motivos para ler/divulgar o seu livro. Por tudo que tenho lido da sua mão, eu de fato não esperava menos. Sou ilustrador e tradutor (Mundo Cristão, O Evangelho Maltrapilho de Manning) e acompanho marginalmente o seu pensamento há muitos anos.

O trabalho de reverter as atenções da igreja de escapar do mundo para inserir-se nele requer esforços múltiplos e estereofônicos, e a sua voz fala alta e claramente neste sentido.

Espero que possamos continuar provocando-nos mutuamente as idéias.

Alguns comentários que coloquei no blog pessoal do Volney, e que realçam alguns pontos de contato no nosso pensamento:



Em primeiro lugar, falar do pós-modernismo (inclusive do relativismo) como raiz de todos os males é algo que não tenho como endossar. O pós-modernismo é, entre outras coisas, uma reação coletiva e não-planejada ao deus racionalismo que reinava durante o modernismo - período durante o qual se cometia a mancada de se tentar explicar tudo pela razão. A mancada foi tão grande que até os cristãos caíram no logro dessa pregação, e adotaram a noção de que tudo pode e dever ser explicado e exposto racionalmente, inclusive as imponderabilidades da criação e da salvação. Leia-se os fundamentalistas norte-americanos e nós que os copiamos incessantemente.

(...) É natural que estou mais para Gondim do que para Sayão. Entre outras coisas, Gondim comete a saudável e ousada e modesta insensatez de afirmar que não está pronto, e de agir em conformidade com essa afirmação. Gondim ousa abrir mão do verniz da polidez - pecaminosa polidez, - e quando se expõe, expõe a todos nós.

Acredito que a grande questão é se fazer presente e relevante para o mundo. As palavras de ordem são disponibilidade e relevância. A cultura evangélica convencional (cuja falência é profetizada e medida por Barna) exige que o cristão se disponibilize incessantemente para a instituição; esse ascetismo nos mantém à salvo da nossa missão e do contato com o mundo. Fomos convidados para nos disponibilizarmos, mas para o mundo, não para uma rotina circular. As rodas de samba, grupos de teatro, salas de aula, salas de chat, blogs, escolas de natação, vestiários, cursos de vendas e cozinhas industriais precisam de gente-cristãos que façam diferença - não apenas por serem diferentes *deles*, mas por fazer diferença *para eles*. Disponibilidade e relevância: as especialidades daquele rabi empoeirado que atraía multidões.


Vamos nos falando e obrigado pela visita.

De Curitiba,

Paulo
http://www.baciadasalmas.com/

qui fev 16, 09:02:00 PM  
Blogger Lou said...

Li o seu livro. Você visitou o Refúgio e deu uma cópia para o Carlos que ficou abandonada sobre uma mesa. Foi assim. Naquele tempo estava discutindo o tema todas as semanas na Uniso e seu livro me deu bons argumentos para entrar naquela discussão. Pude expor uma visão cristã entre pessoas com opinião parcial. Ah, deixei o livro no lugar onde estava, abandonado em cima de uma mesa.

dom fev 19, 09:03:00 AM  

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