sábado, março 18, 2006

Cada Dia Será Como Deus Quiser



Por Luiz Henrique Mello


Em termos da experiência envolvendo nosso filho caçula, o Thomas, um cardiopata congênito, há muito a ser dito. Não consigo imaginar, quando vou parar de descobrir novos ângulos relacionados a essa questão.

Creio que, em termos teológicos, o Fábio Adiron foi muito feliz em seu excelente artigo, publicado nesse mesmo blog. Meu acréscimo já foi mencionado em artigo intitulado “Uma Nova Teologia”, publicado em meu Blog. Todo esse acontecimento nos fez repensar nosso sistema de crenças e tratar de alargar as estacas das nossas tendas.

Tentarei abordar esse tema, um pouco mais, pela ótica das sensações, dos sentimentos, do relacionamento e com algumas consequências mais práticas.

A primeira pergunta que veio a minha cabeça quando me comunicaram o veredicto: “Seu filho tem um mal congênito, de natureza grave e complexa no sistema circulatório, principalmente no coração”, foi: “Espera ai, como isso pode estar acontecendo comigo?” Na verdade, estava acontecendo com o Thomas. Eu, minha esposa e os irmãos dele éramos as outras vítimas, atingidos indiretamente.

O primeiro acontecimento interessante foi a reação do pastor de nossa Igreja. Segundo a teologia dele, na época, essas coisas seriam consequência de pecado. Então, procurou-nos em nosso momento de dor, para convencer-nos a pedir perdão por algum pecado nosso oculto, capaz de ocasionar a cardiopatia no Thomas. Sem comentários.

Segundo os médicos que o atenderam logo de início, o problema poderia ser minimizado com procedimentos cirúrgicos, mas, não havia garantias. Se ele superasse as primeiras horas ou dias, as chances de sobrevivência aumentariam. Isso criou, em mim, um sentimento de gratidão jamais experimentado ou imaginado. Cada novo dia ao lado do Thomas é uma dádiva nova de Deus, certamente. No próximo 11 de maio, comemoraremos 18 anos de gratidão.

Minha esposa desenvolveu um sistema de crenças mais elaborado e surpreendente, a partir dai. Certa vez, logo depois do nascimento de nosso filho, estávamos na porta do Colégio Batista para resgatar os dois mais velhos, quando uma mãe se aproximou dela e, com os olhos cheios de lágrimas, perguntou: “Como você está conseguindo suportar isso?” A resposta encheu os meus olhos de lágrimas, quando ela disse: “Eu li em um livro da Corrie Ten Boon que quando ela era pequena e estava assustada por não saber se Deus a livraria de um grande problema, se isso viesse a acontecer, seu pai lhe perguntou: Quando vamos para a capital a que horas compramos a passagem para embarcar no trem? Ao que a menina respondeu: Um pouco antes de entrarmos no trem. Então, continuou o sábio pai, quando e se esse problema chegar, um pouquinho antes, Deus te dará o necessário para enfrentá-lo.” Assim, concluiu minha esposa, eu nunca tinha imaginado a possibilidade de ser mãe de um filho com esse problema ou outro qualquer, mas, um pouquinho antes dele nascer, Deus me deu os recursos necessários para enfrentar essa situação.

Os primeiros cinco dias do Thomas se passaram dentro da UTI do hospital. A equipes de médicos e enfermagem revezavam-se em turnos e criamos um bom relacionamento com eles. Entretanto, uma noite, quando entrei para visitar o Thomas, fui expulso da UTI pela enfermeira chefe que assumira o plantão noturno. Minha primeira reação foi uma mistura de ódio e abandono, de raiva e impotência ou algo assim, mas, surgiu em minha mente um pensamento estranho, mas, consolador de certa forma: Pensei, “ela não sabe o que faz”. Só faltou pedir a Deus para perdoá-la, por isso.

Nesses dezoito anos, foram duas cirurgias de tórax, inúmeros procedimentos invasivos com cateteres (cateterismos), centenas de exames chatos ou doloridos, mas, isso parece ter sido, sempre, o menos importante. Para o Thomas, surgiram limitações de ordem sociais muito importantes. Ele e todos nós, descobrimos que a sociedade não está preparada para conviver com pessoas cujo aspecto fuja demais aos padrões aceitos. Começamos a reparar, como nunca, que há toda uma cultura determinadora dos biótipos aceitáveis ou inaceitáveis. Através da propaganda, principalmente, essa cultura é construída. No mundo da propaganda, das novelas, cinema, revistas, etc, essas pessoas só aparecem para pedir esmolas ou perpetuar seus dramas. Eles não fazem parte da vida cotidiana de ninguém. Parece não haver esse “tipo” de pessoas no ideário dos meios de comunicação. Esse fato, acaba determinando o comportamento da maioria das pessoas em todos os lugares. A primeira instituição que o Thomas teve que abandonar foi a escola. Depois, percebemos não haver lugar para ele e para nós na Igreja, também. Até encontrar trabalho ficou mais difícil. As pessoas, por diversas razões de ordem emocional, não querem contratar o pai, a mãe ou o irmão de alguém com esse problema.

A Internet passou a ser o mundo do Thomas. A imagem que as pessoas têm dele é aquela que ele escolhe divulgar. Então, ai o relacionamento torna-se igual e democrático para ele.

Não sabemos muita coisa, ou não temos muito a dizer sobre o futuro do Thomas. Muito antes de ele vir ao mundo fui preparado para ele através de um filme cujo título era: “Cada dia será como Deus quiser.”. Assim tem sido a vida do Thomas e a nossa. Cada dia pertence ao Senhor. Então, cabe a Ele determinar tudo.

17 Comments:

Anonymous Fábio Adiron said...

Luiz

Além da fé temos outras coisas em comum. O Samuel também nasceu com uma cardiopatia congênita (corrigida com cirurgia aos 8 meses de vida), e os meus filhos também estudam no Colégio Batista.

Ótimo o seu texto !

Abraços

Fábio

seg mar 20, 06:58:00 PM  
Blogger Lou said...

E, pelo seu artigo, nós dois fomos inspirados a alargar as estacas de nossas crenças teológicas. Obrigado por suas palavras e identificação.

ter mar 21, 11:38:00 AM  
Blogger Vilma said...

Luis: que maravilhoso testtemunho de vida, de confiança, de inquietudes, sim, também; mas de esperança! Obrigada, meu irmão! Edifica o meu coração e a minha alma! Que Deus vos abençoe a todos vocês!

qua mar 22, 04:08:00 PM  
Blogger Lou said...

Vilma, bem vindas as tuas palavras, sempre e mais nesse caso. Fique em paz.

qua mar 22, 09:37:00 PM  
Blogger Hernan said...

Só posso sentir-me honrado em ter conhecido um ser humano como você, Lou. Mesmo pela internet não é difícil perceber o coração das pessoas quando as palavras são sinceras, autênticas.
Não fiquei menos que emocionado com a história do seu pequeno grande Thomas. Também tenho um filho e, embora ele não sofra de algum mal de saúde, é sempre inevitável idetificar-me com a paixão de um pai.

qui mai 11, 01:05:00 PM  
Blogger Tinoca Laroca said...

Querido irmão em Cristo,
Neste dia 11 de Maio de 2005, peço a Deus que como PAI que é, e pelo ABRAÇO com que ABRAÇA, possa fazer em todos vós, sentir esse AFAGO, essa SEGURANÇA.
Muitas barbaridades se fazem numa sociedade.
A igreja infelizmente (não todas) não consegue viver com a complexidade / paradoxo da Palavra, e, então não consegue dar AMOR a quem dele está a precisar, porque também não o tem para dar. Prende-se a regras e quem se prende a regras, fica debaixo da Lei.
Se cumprissemos o AMOR DIVINO não precisariamos das regras, das normas, elas surgiriam tranquilimente em consequencia do AMOR.
Mas é assim, somos todos falíveis.
Eu também já vivi a "febre" da cura divina e desses blás, blás, blás... foi o mergulhar e querer aprender mais da Palavra que me levou além.
Por isso há que perdoar os ignorante e seguir em frente.
Porque isso é sinal que vamos muito lá à frente e precisamos ajudar os que estão atrás no caminho.
Eu acompanhei de perto um cancer de uma menina de minha igreja, que acabou por falecer. Teve um sofrimento de 2 anos terriveis.
Só partiu quando os pais finalmente estavam preparados.
Isso me deu uma grande lição.
Mas também me abateu durante muito tempo.
Sintam o meu abraço ainda que virtual, e, CORAGEM no Caminho pra o qual Deus já vos tinha preparado, sem que ainda nem sequer o soubessem.
Desculpe a extensividade.
T.

sex mai 12, 10:10:00 AM  
Blogger Lou said...

Hernan e Tinoca
Agradeço os comentários. Na verdade a honra é toda minha em tê-los conhecido e ter o privilégio de conviver com vocês nesse mujndo cibernético. Todos nós, em nossa família, temos consciência de nossa missão. Como diz o apóstolo Paulo em II Cor. "Consolando com as mesmas consolações com que fostes consolados." Essa é a fonte de nossa inclusão no Evangelho da Graça.

sex mai 12, 06:35:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Minha filha Daria tem 27 anos. a primeira operacao ao cerebro tinha 7 dias de idade. A ultima foi ha 7 semanas. Para dizer a verdade, ja perdemos contas a quantas fez. Tambem tive "amigos muito crentes" que me disseram que era castigo de Deus. Chorei pela ignorancia deles! Esta alma que me foi entregue e a mais maravilhosa do mundo. Nao foi castigo, pois o Deus em que creio nao castiga, mas foi sim um PRESENTE. Um presente que ELE sabia eu conseguiria aceitar sem questionar as razoes. Mesmo quando nao vemos "milagres" eles existem...pois Deus tanto ama os que se consideram curados, como os que acabam por morrer sem cura. ELE nos ama a todos igualmente. Neste momento, a minha Daria continua a lutar pela sua vida, mas aceitaremos com gratidao o que Deus tem para nos dar.

ter mai 16, 11:26:00 AM  
Blogger Lou said...

Anônimo, Mãe ou Pai da Daria

Deus está em nós e junto de nós, através da solidariedade, também. Você vir e deixar seu testemunho nos fortalece e a todos que passarem por aqui. É muito importante quando alguém se mostra dizendo: "Eu sei do que você está falando." Deus abençoe a Daria e você muitissimo. Fique em paz.

qua mai 17, 01:56:00 PM  
Blogger Flá Mendes said...

Quando conhecemos testemunhos e pessoas assim, somos inspirados por Deus a corrigir nossas perspectivas e experiencias, aprendendo a valorizar o que realmente importa, e a descobrir que ter prioridades correctas é tão importante como o ar que respiramos. Percebemos que Deus dá-nos ministérios de bençãos, onde somos a cada dia desafiados a crer e não duvidar, mesmo que a dúvida nos encontre, somos desafiados a ter esperança e a ter prioridades correctas.
Obrigado por partilhares.
Encorajaste-me.
Deus te abençõe

qua mai 17, 05:31:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Obrigada. Continuarei a visitar.
Pessoas como voces, sao as minhas asas!

mae da Daria

qua mai 17, 10:17:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

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seg abr 23, 10:39:00 PM  
Blogger Mamanunes said...

Lou, meu querido. Mais te conheço, mais te admiro. Você e sua família.
Dou ao Thomas o meu coração, se ele aceitar...
..um abraço, um beijo, minhas orações e o que mais for possível, disponham.

sex nov 02, 06:20:00 PM  
Blogger jacira said...

Queridos Luiz e Dedé,
Eu chamo de queridos, apesar de só nos conhecermos virtualmente,mas Deus sabe o quanto tenho me empatizado com vocês.
Não sabia do problema de seu filho e não sei o que é ter um filho com essa doença.
Sei do amor de Deus há muito anos.Tenho reconhecido Seu grande amor por toda a minha vida.
Tenho eu mesma uma doença grave e estigmatizante.Vim descobrir que sofria desse mal aos 44 anos.Vocês não sabem como o mundo desabou sobre minha cabeça.É uma doença que não tem cura,só controle.Essa doença afeta toda a vida da pessoa(mental,emocional,estrutural,financeira,amorosa,etc).
Em dezembro tive uma crise e fiquei com depressão.Estou me tratando até agora,e vou ter de me tratar pro resto da vida.Neste momento se fosse lhes explicar,eu contaria sobre a minha TOTAL falta de perspeciva na vida,humanamente falando.
Deus existe e Ele é Deus.A fé que Ele colocou em nossos corações só Ele pode tirar.
Sabe Luiz,aquela frase que dizem por aí:"a esperança é a última que morre"?Para nós,que cremos no Evangelho,sabemos que ela nunca morre.Já ouvi essa frase de pessoas que se diziam cristãs(não quero julgá-las),porém sei que você e a Dedé também acreditam assim.Tenho ensinado isso a meus filhos.
Só Deus sabe porque temos de passar por esses problemas,mas Ele não nos deixa sós.Nós cremos num Deus que ama,ampara,guarda,sem restrições.
Já aderi à comunidade,agora quero saber o que mais posso fazer além de orar.

Muitos beijos e muitas bençãos sobre vocês,sua família e principalmente sobre o Thomas.

De todo o coração,

Jacira

seg mar 03, 09:39:00 PM  
Anonymous Lou Mello said...

Jacira

Obrigado por suas palavras, especialmente ao compartilhar sua dor. Se há alguma revelação nisso tudo, para mim, é que minha teologia estava toda equivocada. Na verdade, eu não conhecia Deus, embora me achasse alguém com conhecimentos teológicos acima da média, sem falar que eu profetizava, expulsava demônios, jejuava, cantava no côro e todas essa bobagens dogmáticas. Agora, viver é tornar a vida do Thomas melhor, sem esquecer os irmãos dele, aos quais eu incluo todos os sofredores desse mundo. Ele me fez ver quão picareta eu sou. Fora isso não há o que dizer. Talvez, na vida eterna (se houver uma) haja mais informação.
Não sei se era isso que você queria ler, mas isso é o posso lhe falar de coração.

qua mar 05, 10:07:00 PM  
Blogger Alice said...

Lou, vc e sua familia são exemplo de força e fé . Sei que Deus é contigo !
Meu amor para vc e sua família.
Abraços
Alice

seg mar 10, 10:42:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

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ter dez 22, 01:23:00 AM  

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