sábado, maio 27, 2006

Síndrome de Nínive



Por Thomas Hahn

Pois é. Aí Deus disse para Jonas:

Vá até Nínive e dá um jeito naqueles bárbaros assírios. Avisa que se eles não se emendarem de seus caminhos, serão destruídos.

Deus é Deus, mas tudo tem sua hora, o seu momento. É verdade que a turma de Nínive estava abusando da corrupção, da violência, do descaso para com Deus. Mas eram pagãos, não eram? E Deus era o Deus exclusivo da Igreja Evangélica de Jonas, em pleno desenvolvimento espiritual (53% dos membros achavam que tinham crescido espiritualmente nos últimos 12 meses, mercê da fabulosa série de sermões sobre espiritualidade zen proferidas por Jonas).

E se Jonas sofresse um ataque da parte daqueles ímpios? E se não pudesse completar sua série de sermões? Aquilo, sim, é que era obra de Deus!

“Me desculpe Deus”, teria dito Jonas, “Eu vou, sim, mas não para o Norte, para Nínive, mas sim para o Sul, participar de uma conferência (abençoada) sobre, justamente, a Espiritualidade Zen no Contexto Lacasiano.”

O que Jonas não levou em consideração é que sua desobediência a Deus poderia afetar, negativamente, a si próprio (três dias no estômago de um peixe deixam você com um odor meio, digamos, pungente) e à sua Igreja, que começou a viver escândalos e futricas.

Quando, porém, Jonas se arrepende e decide obedecer a Deus, e rumar para Nínive, capital da Assíria, a tempestade se acalmou.

Agora, sua performance em Nínive foi, para dizer o mínimo, amadorística. Principalmente para um profeta com a quilometragem de Jonas. Não foi convidado para dar conferências em igrejas evangélicas, pelo simples motivo de lá não existirem. Ficou tristemente limitado a pregar em praça pública. E, para curiosos e bêbados (além de alguns cachorros).

E a mensagem? Totalmente ultrapassada: Arrependam-se, ou...

Só que Deus era (continua sendo) Deus. Nínive inteira se arrependeu, para o intenso desgosto de Jonas – não eram eles os não-escolhidos de Deus? Que negócio é este? Mas, naquela hora, houve salvação em Nínive.

Os nossos profetas, se os há, estão na fase 1 de Jonas. Interessados em tudo, menos no enfrentamento da corrupção e da violência que subjuga o brasileiro. Não indo para Nínive, não pregando o arrependimento com perdão, ou então a condenação. Não querendo fazer um papelão.

Mas o nosso barco vai afundar, Jonas!