quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Paulo Brabo

Este mais recente integrante da equipe Kerigma é um irmão muito especial. Não é um achado exclusivo nosso. Muito antes, muitos outros já o tinham por perto. Entendam outros – aqueles bem articulados editores que convocam os serviços de Brabo para traduzir autores do calibre de John Stott e Brennan Manning.

Certamente Paulo Brabo tem a seu favor um estilo e uma fluência escrita sem comparação – basta ler suas postagens ou mesmo o artigo a seguir. Bem, e quando se trata da blogosfera, iremos descobrir que o mais prolífico de todos nós, reside nas Índias Ocidentais (destino intencionado de Pedro Álvares Cabral), mais especificamente no Monastério de São Brabo, publicando no Bacia das Almas – onde as idéias não descansam - uma variedade de posts debaixo de dezenas de rubricas.

Quase que invariavelmente na discordância, ele nos faz pensar um pouco além, ou pelo menos nos incita a despirmos a dura e rígida armadura exegética. Sempre de modo cordial, suas idéias vêm banhadas em amor – mesmo que seja na antítese de nossa afirmativa.

Paulo Roberto Purim, a.k.a. Paulo Brabo, ou para os mais próximos, simplesmente Brabo - é amável como um frei ...

Pós-Modernismo e Proclamação


Por Paulo Roberto Purim (a.k.a. Paulo Brabo)

O comunismo saiu da arena principal e o islamismo ainda não tomou o seu lugar. Entre nós, cristãos, o esporte do momento é atacar o pós-modernismo e tudo que aprendemos a associar a ele: o relativismo (ou o desprezo pela idéia de uma verdade única e irrefutável), o misticismo (ou a busca por uma espiritualidade irresponsável e nos lugares errados) e ainda o seu ceticismo tolerante (a desconfiança da validade de qualquer fé em particular aliado a um estranho respeito por todas).

Incumbiu-me o Volney de tentar explicar aqui porque não acredito que os cristãos devam temer a onda implacável da pós-modernidade, mas sim aprender a – por assim dizer – surfá-la.

Sigo (mas não me atenho necessariamente a) a lúcida exposição de Robert N. Nash Jr. em seu An 8-Track Church in a CD World.

Quem é o bicho e quantas cabeças ele tem

Quem fala em pós-modernidade está dividindo a história da civilização, muito grosseiramente, em três grandes períodos: a era pré-moderna, a era moderna e a era dos nossos dias - esta que, na falta de um nome melhor, convencionou-se chamar de "pós".

A primeira era, a pré-modernidade, começou com o primeiro homem e estendeu-se a até algum momento do século XVIII. Durante todo esse período o ser humano manteve-se, basicamente, um bicho místico. A vida estava além do controle do homem e só podia ser explicada em termos sobrenaturais. Em geral não ocorreria a ninguém duvidar da realidade do mundo dos espíritos ou de coisa que o valha (digamos, o imaterial mundo das idéias de Platão), e todas as soluções aos problemas do ser humano dependiam da boa vontade de Deus ou deuses.

Perto de 1700 a modernidade fincou pé. A Renascença deu a primeira, o Iluminismo a segunda e definitiva estocada que tiraram Deus do centro das atenções e colocaram ali o homem e os esforços humanos - particularmente a razão. A principal característica da era moderna é a sua suprema confiança na mente humana. Gente como Descartes gravou a ferro e fogo na mentalidade ocidental a noção de que a razão é o único caminho para o conhecimento, e toda a era moderna partiu do pressuposto de que a razão e a ciência (aplicadas em todas as áreas: saúde, política, urbanismo, ética) trariam as soluções necessárias para os problemas da humanidade. O sensato slogan da nossa bandeira brasileira, "Ordem e Progresso", é tipicamente moderno em seu otimismo na iniciativa humana fundamentada no triunfo da sensatez e da razão.

Foi ao redor de 1960 que a maré começou a mudar. Coisas como a crise de energia, a teoria da relatividade, a guerra do Vietnã, a bomba de Hiroshima e os abusos do consumismo contribuíram para que as pessoas passassem gradualmente a concluir que a razão humana talvez não trouxesse, como prometera, respostas para os anseios mais profundos do mundo e do homem. Trezentos anos da supremacia da razão não haviam trazido nenhuma solução unânime para os problemas da guerra, da fome, da injustiça, do vazio existencial. A razão, concluíram esses, fracassara, e diferentes grupos independentes começaram a tatear em todas as direções em busca de alternativas. A revolução sexual, mística e química trazidas à luz pelos hippies dos anos 60 foram os primeiros movimentos que pressupunham essa desconfiança pós-moderna para com as soluções otimistas e pré-fabricadas da era anterior.

A pós-modernidade que se levantou das cinzas da modernidade é tremendamente difícil de definir - entre outras coisas, porque definição é conceito tipicamente moderno e pertence a uma era anterior. Pode-se dizer com segurança que o homem pós-moderno é ao mesmo tempo cético, espiritual e tolerante. Ele duvida da eficácia da razão, do pensamento linear, da lógica convencional, da explicação racional. Ele está portanto aberto a todas as formas de misticismo e religiosidade, mas não apostará na validade definitiva de nenhuma, porque crê que todas contém a sua parcela de "verdade" e nenhuma pode ter a pretensão de se posicionar como verdade definitiva – possibilidade que arruinaria a validade e a beleza das outras alternativas.

A indomável mentalidade desta era pode ser mais facilmente compreendida se considerarmos a forma de arte mais tipicamente pós-moderna: o videoclipe. Os primeiros vídeos de música eram "modernos" no seu caráter linear – contavam "historinhas" com começo, meio e fim. Mas logo os produtores de videoclipes adotaram uma linguagem mais radical, menos linear e mais fragmentária. Um videoclipe é um amontoado de imagens que não necessariamente contam uma história ou têm qualquer relação entre si; não têm uma "explicação". Seu sistema é a ausência de um sistema. A idéia é passar uma impressão, e não deixar alguma coisa absolutamente clara.

Filme é coisa moderna. Videoclipe é cria pós-moderna.

A igreja e o bonde da pós-modernidade

Uma pergunta importante: por que que a igreja cristã não estava pronta e presente para acolher esses "filhos desiludidos" da razão e da modernidade logo que eles começaram a pipocar na década de 1960? Por que os hippies não se voltaram para a fé cristã quando precisaram satisfazer o seu anseio por uma espiritualidade real?

A resposta curta é que a igreja cristã havia, ela mesma, se dobrado no altar do modernismo. O discurso da supremacia da razão havia sido tão longo e eloqüente que até mesmo os cristãos tinham caído no logro da sua pregação. A igreja cristã havia de alguma forma adotado a noção paradoxal de que tudo a respeito da fé pode ser explicado e exposto racionalmente, inclusive as imponderabilidades da criação e da salvação.

A própria Bíblia havia caído vítima dessa ênfase excessiva na razão humana. Complicadas fórmulas eram e são utilizadas para provar que a escritura cristã faz sentido racional e é espelho fiel da realidade científica. Em 1793, Kant publicava A religião apenas dentro dos limites da razão, e quase duzentos anos depois Josh McDowell articulava ainda uma defesa racional da divindade de Cristo, demonstrando por A + B que a fé cristã é a escolha mais sensata na prateleira.

O problema é que, adotando essas interpretações racionais, a igreja confessava que a ciência e o racionalismo são os critérios pelos quais a realidade deve ser julgada.

Quando começaram a buscar onde saciar a sua terrível sede pelo espiritual e pelo místico, as pessoas foram forçadas a concluir que a fé cristã era simplesmente racional demais para interessá-las – e a igreja perdeu assim o bonde da pós-modernidade.

A que posso comparar?... A Bíblia, Jesus e o fragmentário método pós-moderno

Chamar a Bíblia de pós-moderna seria anacronismo, mas creio que pode-se com segurança afirmar-se que os escritores bíblicos não tinham uma mentalidade moderna; não criam na supremacia da razão nem na superioridade da exposição linear e dos sistemas racionais.

Jesus, por exemplo. Para escândalo e perplexidade dos teólogos, Jesus não chegou nem perto de expor a sua teologia de forma sistemática. Tudo que ele deixou a fim de transmitir a sua mensagem foi o seu exemplo, um punhado de histórias curtas e uma longa série de frases de efeito, sendo que cada um desses elementos não parece sustentar qualquer conexão imediata com os outros. Para seus ouvintes e leitores tudo que o discurso de Jesus deixou foi uma série livre de imagens sem qualquer ordem ou prioridade particular: um videoclipe do reino, por assim dizer.

Jesus não fez uma série de conferências, não expôs as quatro leis espirituais, não definiu predestinação nem trindade, não pregou teses na porta do Templo, não apresentou uma vez que fosse o plano da salvação. Ao invés de apresentar um cenário racional e ordeiro, uma visão geral seguida por definições, demonstrações e apêndices, tudo que ele fazia era coçar a barba e dizer: "A que posso comparar o reino?..."

Isso não impedia, naturalmente, que as pessoas saíssem dali saltitando a sua conversão.

Os escritores bíblicos também não compartilhavam do nosso horror tipicamente moderno/racionalista à contradição. O livro de Gênesis, por exemplo, parece narrar a criação de duas formas contraditórias, e até a ascensão do modernismo isso nunca foi motivo de escândalo para ninguém. É racionalista até mesmo o esforço tradicional em conciliar as duas versões. Parece absurdo à mente moderna considerar que as duas possam ser ao mesmo tempo diferentes e verdadeiras: isso seria na nossa opinião relativizar a verdade. Os escritores bíblicos provavelmente chamariam a mesma coisa de transmitir uma profunda verdade espiritual.

Como não estava preso aos nossos escrúpulos com a racionalidade, Jesus sentia-se livre para dizer coisas como "Eu sou a luz do mundo" sem temer ser apanhado em contradição com a "verdade" científica de que a Terra é iluminada pelo sol e não por Jesus. Não é como se a realidade espiritual contradissesse ou relativizasse a realidade científica da importância do sol. Não há relativização aqui, embora as duas coisas sejam verdade ao mesmo tempo.

Ainda mais revelador é o fato de Jesus ter afirmado ser, ele mesmo, a Verdade com letra maiúscula – tirando dessa forma para sempre a verdade do domínio da razão. Se a verdade é uma pessoa ela não tem como ser comprovada ou refutada pelo método científico. Uma pessoa pode ser no máximo abraçada e experimentada, nunca explicada racionalmente.

A Bíblia traz um convite para nos relacionarmos pessoalmente com a verdade, e não um tratado para a comprendermos racionalmente.

Coisas que têm, definitivamente, um sabor pós-moderno.

A proclamação no idioma da pós-modernidade

Como pregar-se com um barulho desses? Como transmitir-se a verdade para quem não acredita numa verdade definitiva?

Em primeiro lugar pode ser útil reconhecer que, como a Verdade que temos a transmitir é uma Pessoa e não uma série sensata de proposições racionais, o cristianismo pode encontrar no terreno da pós-modernidade uma tremenda vantagem. Podemos resgatar tranqüilamente "a insensatez do evangelho" e o "escândalo da cruz", porque não precisamos mais fingir que a razão e a verdade científica são as verdadeiras medidas da realidade. Jesus é muito mais luz do mundo do que o sol jamais chegará a ser.

Quando bate o pé afirmando que não existe uma verdade definitiva, o homem pós-moderno está falando basicamente de uma verdade racional. Uma verdade relacional tem tudo para chamar a sua atenção. E ele certamente vai gostar de ouvir que a letra mata e o espírito vivifica.

Mas de que forma, você pode perguntar, se transmite uma verdade-pessoa?

Isso, meu caro, é problema seu. Ninguém sabe exatamento como, mas parece seguro que teremos de acabar abrindo mão de todas as abordagens convencionais (todas elas racionalistas e "modernas") de evangelização.

Robert Nash Jr. faz uma série de generalizações a respeito da proclamação do Reino no idioma da pós-modernidade:

· o desafio requer verdadeira espiritualidade;
· cruzadas evangelísticas e séries de conferências, como praticadas na maior parte das igrejas, são relíquias antiquadas de uma visão de mundo "moderna" em declínio;
· o conceito racionalista e mercantilista de "plano da salvação", desenhado para atingir-se o maior número de pessoas no menor tempo do possível, está definitivamente ultrapassado;
· ser cristão tem de ser mais do que evitar-se a punição do inferno;
· a igreja deve parar de fazer declarações proposicionais a respeito de Deus enquanto ignora a necessidade que as pessoas têm de uma experiência com ele;
· os cristãos devem parar de "convidar as pessoas para ir à igreja" e começar a convidar as pessoas a conhecerem Cristo através delas.

Acredito que, no fim das contas, a grande questão é se fazer presente e relevante para o mundo. As palavras de ordem são disponibilidade e relevância. A cultura evangélica convencional exige que o cristão se disponibilize incessantemente para a instituição; esse ascetismo nos mantém à salvo da nossa missão e do contato com o mundo. Fomos convidados para nos disponibilizarmos, mas para o mundo, não para uma rotina circular. As rodas de samba, grupos de teatro, salas de aula, salas de chat, blogs, escolas de natação, vestiários, cursos de vendas e cozinhas industriais precisam de gente-cristãos que façam diferença - menos por serem diferentes das pessoas do que por fazerem diferença para as pessoas.

Hoje em dia faz mais sentido contar histórias do que expor argumentos infalíveis. Ir com o amigo ao cinema ou a um pesque-pague do que abrir o livrinho com as quatro leis espirituais. Silenciar e permanecer ao lado do que falar pelos cotovelos e sumir imediatamente da vida do sujeito depois de desincumbir-se da tarefa de vender a nossa enciclopédia salvífica. Trata-se por certo mais de trazer o Reino para perto das pessoas do que tentar arrastá-las para onde afirmamos que o Reino está confinado.

Isaías Lobão Pereira Júnior


Continuando na apresentação de nosso quadro de colaboradores, temos a importante participação do Pastor Isaías Lobão Jr, um autêntico representante da boa teologia e do bom pastorado do Brasil Central. É interessante como nosso país tem um problema de 'concentração'. Certamente a nossa Capital - é pouco comum dizermos Distrito Federal - reúne uma pleiade de nomes de destaque da vanguarda do Reino.

Como membro da Fraternidade Teológica Latino-Americana - seetor Brasil (FTB-L), Isaías Lobão tem sido um dedicado estudioso do nosso tempo e da influência da teologia na Igreja Brasileira. Como professor da Faculdade Teológica Cristã do Brasil (FTCB) e da Faculdade Teológica das Assembléias de Deus (FATAD), tem seu tempo dividido com o pastorado da Igreja Batista Independente no Planalto.

Pastor Isaías é também bacharel em História pela Universidade de Brasília (UnB). Sua participação na blogosfera pode ser acompanhada em Coram Deo.

A Cosmovisão Cristã

Por Isaías Lobão Pereira Júnior (Equipe Kerigma)

O que é uma cosmovisão? É uma maneira de ver o mundo. Ela é a interpretação que uma pessoa faz da realidade ulterior. É o sistema de pressupostos que se usa para organizar e interpretar a sua experiência da vida. É literalmente a sua visão do cosmos. “Uma cosmovisão é um conjunto de pressuposições (pressupostos que podem ser verdadeiros, verdadeiros em parte, ou totalmente falsos) que nós abraçamos (conscientemente ou não, consistentemente ou não) acerca da composição básica do nosso mundo[1].”

O âmago da experiência cristã é um encontro pessoal com Deus em Cristo que nos dá forma e expressão. Com base neste encontro, procuramos moldar nossa vida pessoal. É nesse contexto de vida assim entendida, narramos a história de uma experiência religiosa transformadora. E desafiamos outros a ter a mesma experiência.

Entender a fé cristã como um sistema total de vida é absolutamente essencial, por duas razões: Primeiro, nos capacita a dar sentido ao mundo em que vivemos e assim ordenar nossas vidas mais racionalmente. Segundo, nos capacita a entender as forças hostis à nossa fé, equipando-nos para evangelizar e defender a verdade cristã como o instrumento de Deus para transformar a vida do crente.

O fundamento da epistemologia cristã é a intervenção livre e sobrenatural de Deus na história. A crença em Deus pode ser racional, justificada e é constituída pelo conhecimento independentemente dos argumentos ou evidências proposicionais que apóiam as demais crenças religiosas. Alvin Plantiga[2] acredita que a crença religiosa seria resultado não de inferências, mas de um tipo especial de percepção, uma intuição imediata e básica da presença divina. A crença em Deus é básica e não derivada de argumentos, porém ela não deixa de ser justificada.

Plantiga está refletindo aqui o pensamento de Calvino, conforme expresso nas Institutas, livro 1, III[3]:

O próprio Deus deu ao homem esta convicção, e constantemente a renova, de modo que o homem possa pleitear a ignorância como desculpa pela sua falta de sujeição à vontade do seu Criador. Um escritor pagão (Cícero) nos contou que não há nação tão bárbara que esteja destituída da crença na existência de um Deus. Visto, portanto, que nunca houve um país, uma cidade ou um lar, sem senso algum de religião, temos nisso um tipo de confissão tácita de que o homem naturalmente sabe que há um Deus... Por isso, embora os homens procuram esconder-se da presença de Deus, são presos num laço, e estão compelidos, querendo ou não, a reconhecer a Sua existência. Logo, concluímos que esta não é uma verdade que precisa ser aprendida na escola, e sim, uma que cada homem aprende de si mesmo, e que não pode erradicar do seu coração, embora force todos os seus nervos para assim fazer.

Calvino sustenta a clássica distinção entre o conhecimento de Deus como Criador (via Revelação Geral) e o conhecimento de Deus como Redentor (via Revelação Especial, ou seja, as Escrituras).

O conhecimento de Deus como Criador é obtido por dois meios. Aqui Calvino sustenta a noção de Agostinho que todos os seres humanos possuem um conhecimento inato da existência de Deus. Em primeiro lugar, Deus implantou, através da revelação natural, o conhecimento de Sua existência na mente natural de cada ser humano, independente de qualquer experiência exterior. A expressão latina Sensus Divinitatis é usada para resumir o pensamento calvinista. Em segundo lugar, Ele pode ser conhecido através do mundo criado. O ser humano pode abrir seus olhos e ao contemplar a criação e inferir a existência de Deus. De fato, para Calvino, os argumentos da teologia natural são suficientes para provar a existência de Deus.

Por isso, ele encorajava indivíduos qualificados, através da pesquisa disciplinada, a estudar a ciência de seus dias. Segundo ele, o estudo detalhado do mundo criado revelaria a natureza de seu Criador. Klaas Woortmann[4] atribui a Calvino a o crédito de reconhecer discrepâncias entre a visão de mundo científica e o texto bíblico, sem repudiar, por isso a ciência nem a Bíblia. A teologia de Calvino veio favorecer o surgimento da ciência moderna.

Entretanto, devido a influência das críticas de David Hume e Immanuel Kant, tornou-se hoje uma convenção a afirmativa de que não existem bons argumentos favoráveis à existência de Deus. Porém, o mais vigoroso ataque nesse sentido foi feito pelo positivismo lógico, na primeira metade do século XX. Segundo os positivistas lógicos, pelo fato das proposições acerca de Deus não serem nem verificáveis, nem analíticas ou autocontraditórias, elas não teriam significado.

As reações aos ataques dos positivistas foram basicamente três: mostrar que a linguagem religiosa atende os critérios colocados por eles, defender o caráter significativo, mas não-cognitivo da linguagem religiosa e atacar os critérios de significação do positivismo lógico.

Duas críticas foram particularmente comuns contra os critérios dos positivistas. Primeiramente, eles foram acusados de não justificarem suficientemente os critérios propostos, que ficavam, assim, arbitrários. Em segundo lugar, os critérios não eram precisos o suficiente para eliminar a linguagem religiosa e metafísica sem também eliminar a linguagem científica.

Segundo Michael Tooley[5] , uma sentença é cognitivamente significativa se e somente se estiver numa relação de confirmação com sentenças observacionais básicas. O problema com sentenças envolvendo Deus é que o tipo comum de linguagem observacional não permite qualquer confirmação delas, pois Deus é tido como experiencialmente transcendente, não podendo ser analisado em termos de sentenças sobre o mundo físico ou de experiências de sujeitos de percepção corpóreos.

Em The Possibility of Theological Statement, I. M. Crombie[6] admite que há importantes diferenças entre sentenças acerca de Deus e sentenças sobre qualquer outro indivíduo, mas defende que o teísmo cristão tem algumas crenças factuais que não podem ser reduzidas a prescrições morais.

As diferenças entre a linguagem religiosa e a linguagem comum não significam que a primeira é factualmente sem sentido, e sim que Deus é diferente de todos os outros indivíduos aos quais podemos nos referir na linguagem.

Em termos positivos, o nome “Deus” se refere a um conceito que pode preencher certas deficiências em nossa experiência que não podem ser preenchidas por nenhuma experiência comum ou pela teoria científica. Além disso, as experiências de amor, poder e conhecimento podem ser descritas sem referência a um espaço e é por isso que podemos falar de um espírito que as possui como um espírito incorpóreo .

A idéia de “infinito” que associamos à noção de espírito representa a possibilidade de remoção de certas insatisfações intelectuais que podemos sentir com a experiência comum. Assim, as coisas que dizemos de Deus são parábolas, ou seja, não são literalmente verdadeiras. Mas elas são fiéis na medida em que permitem compreender a natureza da realidade que pretendem exprimir.

Portanto, a existência de Deus é ontologicamente e "racionalmente" necessária. O ser humano pode conhecer a Deus. A revelação natural e especial são claras ao ponto de que o homem pode se assegurar da existência de Deus. o cristianismo pode ser compreendido como um "sistema de crenças", que oferece uma maneira de compreender o mundo. O cristianismo trata de metafísica (a teoria da natureza fundamental do universo), da epistemologia (a teoria do conhecimento) e dos valores (a ética, estética, a economia, etc).


[1] SIRE, James. O universo ao lado. Trad. Paulo Zacarias. São Paulo: Editorial Press, 200.
[2] PLANTIGA & WOLTERSTORFF. Faith and rationality, pp. 72.
[3] WILES, J.P. Ensino sobre o cristianismo, pp. 34-35.
[4] WOORTMANN, Klaas. Religião e Ciência no Renascimento, pp. 75.
[5] DIAMOND, Malcolm L.and LITZENBURG, Thomas V. (eds) Theological Statements and the Question of an Empiricist Criterion of Cognitive Significance, in The Logic of God - Theology and Verification, Indianapolis, 1975, 481-524.
[6] MITCHELL, Basil (ed). “The possibility of theological statements”. In Faith and Logic. London: Allen and Unwin, 1958, pp. 31-83.

Viva Rio no CMI

Viva Rio participa do evento apresentando boas práticas sobre cultura de paz e projetos com a juventude

A 9ª Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) acontecerá em Porto Alegre, RS, Brasil, de 14 a 23 de fevereiro de 2006, sob o tema "Deus, em tua graça, transforma o mundo". A Assembléia será um tempo de encontro, oração, celebração e deliberação para milhares de cristãos – mulheres e homens – de todo o mundo. O Conselho Mundial de Igrejas é uma comunhão de mais de 340 Igrejas, Protestantes, Anglicanas, Ortodoxas, unidas e outras igrejas, em mais de 100 países, representando mais de 550 milhões de cristãos e hoje tem como secretário-geral, Konrad Raiser, da Igreja Evangélica da Alemanha. A Igreja Católica não faz parte do CMI, mas mantém um grupo de trabalho com o mesmo, enviando uma representação a estas assembleias gerais.

O Rubem César Fernandes, diretor-executivo do Viva Rio, e o Viva Rio pertencem ao Conselho Internacional de Religião. A antiga parceria começou com o programa “Paz para cidade” que promoveu o intercâmbio entre grupos que desenvolviam a cultura de paz. Em continuidade a esta parceira, a ONG participa da Assembléia em diversas atividades. O Viva Rio levará para o Mutirão (veja descrição abaixo) a experiência adquirida na época da Campanha do Desarmamento em que contou com o importante e essencial apoio das igrejas. Representantes do Viva Rio também participam do painel sobre os jovens, apresentando as boas práticas desenvolvidas pela organização para este público.

A Assembléia é o "mais alto órgão legislativo" do CMI, e acontece a cada sete anos. A última assembleia foi no ano de 1998, em Harare, Zimbabue, por ocasião dos 50 anos de fundação do Conselho. O objetivo formal é revisar programas e determinar as políticas gerais do CMI, bem como eleger os presidentes e nomear um Comitê Central que atua como principal órgão governamental até a assembléia seguinte. Mais de 700 delegados e seus consultores, representando mais de 340 igrejas-membro, vão desempenhar seu trabalho num programa que incluirá oração, estudo bíblico, plenárias temáticas, palestras e trabalho de comitês.

Essa é a primeira vez que a Assembléia acontece na América Latina. O convite para a realização da Assembléia no Brasil partiu das igrejas brasileiras membros do CMI e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). O local do evento será o CEPUC (Centro de Eventos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Juntamente com o trabalho dos comitês e das sessões administrativas para os delegados, a Assembléia também é uma oportunidade de celebrar e compartilhar com os milhares de visitantes esperados para o evento. Um dos pontos altos da Assembléia será o programa ecumênico de parcerias ou Mutirão – palavra que pode ser entendida como reunir-se, celebrar e refletir juntos. Esta é exatamente a intenção deste espaço que estará aberto para uma ampla gama de igrejas, organizações ecumênicas e grupos de todas as partes do mundo. A programação diária do Mutirão irá incluir apresentações, exposições e discussões abertas a todos os participantes da Assembléia.

O evento reunirá em Porto Alegre mais de 3.000 representantes de diversas Igrejas.Além dos assuntos ligados diretamente a questões de fé, como celebrações, orações diárias, estudos bíblicos e diálogos ecumênicos, esta assembléia está adquirindo o caráter de Fórum Social Mundial Ecumênico, com mais de 220 seminários e 150 exposições sobre temas e iniciativas de ações humanitárias promovidas pelas Igrejas ou entidades a elas ligadas.
Ativistas de Direitos Humanos e ganhadores do Prêmio Nobel da Paz como o escritor Adolfo Perez Esquivel, o arcebispo africano Desmond Tutu e a defensora das causas indígenas na Guatemala, Rigoberta Menchú, são convidados ilustres do evento. A programação também contempla um mosaico cultural montado por meio de shows artísticos internacionais, com ênfase para a mostra de manifestações artísticas latino-americanas.
Embora a assembléia seja dirigida aos representantes das 347 Igrejas filiadas ao CMI, a programação deste ano, segundo os organizadores, é aberta "aos interessados no diálogo ecumênico e na concretização da justiça, paz e integridade da criação".
Programação

O programa da 9ª Assembléia será rico e diversificado, contendo vários elementos inter-relacionados, envolvendo comunhão, celebração, discussão e oração. A liderança do CMI espera que esta assembléia venha marcar uma nova fase que inspire e energize o CMI e o movimento ecumênico.

Para os delegados oficiais, as sessões de assuntos administrativos vão enfocar a organização e os programas do CMI, além de tomar decisões sobre prioridades futuras. As sessões temáticas ou deliberativas abrirão espaço para a discussão tomada de decisões a respeito de questões com as quais se defronta o movimento ecumênico. Um programa aberto de parceria chamado "Mutirão" permitirá que as igrejas e outros participantes compartilhem experiências e proponham exposições e apresentações.

Serviço:
9ª Assembléia do Conselho Mundial de Igreja
Datas: de 14 a 23 de fevereiro
Local: CEPUC (Centro de Eventos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Mais informações:
Clemir Fernandes, Religião e Paz, Viva Rio, tel: (21) 2254 3336

Missões

POST MISSIONÁRIO DE ZIG

"...a ponto de se admirarem todos e darem glória a Deus, dizendo: Jamais vimos coisa assim!"Mc.2;12

Recebi de nosso missionário Jorge Feistler esta carta, que repasso na integra, pois é uma preciosidade.O filme Jesus dublado para os idiomas locais, impactou o povo. Tivemos reuniões com 50, 100. 500, 700 e até 1000 pessoas, admiradas em ouvir Jesus declarar em sua própria língua:"EU SOU O CAMINHO..."

O novo templo para 250 pessoas, parece que será pequeno, para a grande colheita que está madura diante de nossos olhos.

Obrigado por sua ajuda.

----

Amado irmão, paz seja em seu lar.

Desejamos que seu novo ano seja tão repleto de bênçãos quanto o nosso. Embora a nostálgica saudade pairasse no ar , nossos primeiros momentos de 2006 foram de alegria junto aos discípulos, quando, à meia-noite, celebramos a Santa Ceia e ouvimos testemunhos emocionantes como o de Úmaro:

”Foi o melhor ano de minha vida porque encontrei JESUS;antes, minha vida era vazia..EU ERA SIMPLESMENTE NADA!”

Retrospectivas e alvos daqueles que o Pai nos deu são como um refrigério para nós, e nos animam a lutar com ainda mais coragem nesse ano. Por eles e pelos que ainda verão a Luz em 2006, vale a pena prosseguir... OBRIGADO, amado irmão, por seguir conosco!

Outra grande bênção foi a vinda de Douglas Amaral, sua família e Wagner e Cléia, de Curitiba, que estiveram fazendo a projeção do filme JESUS (em crioulo e fula) em vários vilarejos. Era emocionante ver o interesse e atenção da platéia, sendo a maior parte muçulmanos, inclusive autoridades. Entre as muitas pessoas que aceitaram JESUS, alguns andaram 28 km para conhecê-Lo melhor(no culto de domingo). Oremos para que “pedras e espinhos” não venham sufocar a preciosa “semente”.

Louvamos a DEUS de maneira especial pelas pessoas que têm mostrado fome e sede espiritual, e têm provado, com suas vidas, um amor sincero pelo SENHOR. Nós convivemos com eles, e sabemos quão caro lhes custa seguir pelo caminho da cruz; é muita renúncia, temores, ameaças, enfim, impossível explicar...mas, eles têm sido fiéis. Por favor, ore conosco por eles, entre os quais um grupo se prepara para o batismo, desafio maior. Como um grupo (média de 30) mora há 14 km daqui, já iniciamos o alicerce do templo de Kadik Iala, estando os próprios membros fazendo os blocos de barro. Simultaneamente, outro grupo de discípulos e eu temos trabalhado no preparo do terreno para a construção do templo em Iemberém. A pressa se deve a dois motivos: a sala que alugamos quase não pode abrigar todos e é quase impossível construir no tempo de chuvas (início de junho).

Então, amado irmão, temos muito trabalho, manual e espiritual, e continuamos dependendo da capacitação do SENHOR, sem a qual nada podemos.

Querido irmão, sem palavras para expressar nossa gratidão a você,
Jorge, Vera, Tiago, Sara e Joshua.

Quer ajudar? Entre em contato conosco: afimdeproclamar@gmail.com

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Quem é Robson Ramos


Kerigma Proclamação recebe uma importante contribuição para o tema da pós-modernidade. Formando a base de uma agenda positiva e construtiva que a Igreja brasileira deve se debruçar e refletir, somos brindados com a participação de um dos nossos colaboradores - integrante da equipe Kerigma.

Robson Ramos foi igualmente colaborador da Revista Kerigma no início da década de 90 - em matéria de capa sob o título A NOVA ERA.

Bacharel em Teologia e Mestre em Estudos do Novo Testamento pelo Pittsburgh Theological Seminary, Robson foi o Diretor Executivo da SBI - Sociedade Bíblica Internacional. de 1996 a 2003, período em que a tradução Bíblia NVI foi concluída e publicada. Ele também dirigiu a ABU - Aliança Bíblica Universitária no Brasil durante 11 anos.

Sentimo-nos honrados com sua renovada e bem pertinente participação. Mais detalhes sobre Robson, bem como do livro que se baseia o artigo a seguir, você pode saber aqui.

Evangelização no Mercado Pós Moderno


Por Robson Ramos (Equipe Kerigma)

- - - - - -
Extraído e adaptado do livro Evangelização no Mercado Pós Moderno, publicado pela Editora Ultimato.

Para maiores informações sobre o livro consulte o site: www.robsonramos.com.br
- - - - - -

Um dos meus melhores amigos — que não se considera cristão — me disse que às vezes se surpreende pensando que, se Deus existe, não deve gostar da banalização que é feita do seu nome. Um conhecido colunista da mais lida revista semanal do país reclamou da superexposição do sagrado em nossa cultura. “Menos deus, por favor” foi o seu desabafo.1 É um alerta. Não é à toa que o segmento dos não-religiosos está entre os que mais cresceram na década de 90.

Qualquer reflexão ou ação evangelizadora, transcultural ou não, deve levar em consideração as mudanças que estão acontecendo ao nosso redor e que afetam a todos nós, assim como as instituições, sejam elas eclesiásticas ou não, nas quais estamos envolvidos.

Vivemos num mundo de extremas transformações, que afetam todos os aspectos da nossa existência. Temas como pós-modernidade e globalização podem não evocar sentimentos muito confortáveis. Mas não podemos ignorar os seus efeitos, se desejamos nos manter responsavelmente engajados no projeto de levar o evangelho até os confins da terra.

A influência que este momento extraordinário exerce sobre o modo como vivemos, trabalhamos e comunicamos as Boas Novas de Jesus Cristo representa um desafio singular para a Igreja. Mais do que isso está reestruturando a vida daqueles que pretendemos alcançar com o Evangelho, assim como as instituições formadoras de opinião.

Neste breve artigo não podemos deixar de fazer alguns registros que sirvam de parâmetro para nossa reflexão sobre a evangelização. Partimos do pressuposto de que as forças da pós-modernidade e globalização, por assim dizer, estão presentes na vida política, tecnológica, cultural, econômica e religiosa; e essas forças afetam direta ou indiretamente sistemas políticos, tradições, valores, formas de pensar e agir, gostos — enfim, a vida da maior parte das pessoas.

Essas forças afetam também as instituições, sejam elas governamentais ou não, privadas ou religiosas. Desse modo, no início deste novo milênio, a Igreja precisa repensar o seu papel e reavaliar as suas práticas.

Esta sensação de fragilidade que experimentamos é também um reflexo da inadequação das instituições que, até o momento, serviram de referência. Precisamos reconstruí-las a partir do resgate de parâmetros encontrados nas Escrituras e na história da Igreja.

Quem é a pessoa que queremos impactar com as boas novas de Jesus Cristo, no início do terceiro milênio?

Segundo um filósofo contemporâneo, “o homem moderno é o que experimenta a sensação do estranho, não tem certezas estabelecidas, apenas dúvidas”.2 A cada dia, somos levados a conviver com novas tecnologias. Vivemos como nômades, exilados do único lar que conhecíamos. Uma das características desta época é o não-pertencimento, representado pelos “sem-lar”, a exemplo do filho pródigo, que, após ter saído de casa, passou a viver “num lugar distante” (Lc 15.11-32).

A sociedade que adentra o terceiro milênio é cativa da visão pós-moderna que nada vê além da fragmentação e que, como um barco sem rumo afirma a “dissolução da totalidade, do grande relato, da interpretação abrangente e histórica”.3

Como é a paisagem religiosa no início do terceiro milênio?

Ao contrário do que foi apregoado pelos profetas da modernidade, as sociedades modernas não decretaram o fim da religião mas viram surgir uma recomposição do campo religioso. Longe do controle e tutela institucionais, abriram-se novos espaços para a multiplicação de formas originais de crença.

Por um lado, a religião é relegada a um lugar secundário na sociedade. Por outro, cresce o interesse e a demanda por temas e práticas de caráter espiritual, nas formas mais variadas e diversas possíveis. Este processo — que acontece sem que possa ser controlado pelas instituições religiosas legitimadoras das crenças — é facilmente observado pela multiplicação de símbolos e discursos religiosos que formam esse sincretismo religioso que vemos por toda parte.

Num contexto fértil como este, em que testemunhamos diariamente a emergência de formas inesperadas de sociabilidade religiosa, é preciso buscar e explorar novos rumos que permitam que ações evangelizadoras criem raízes e se concretizem de forma dinâmica.

Quaisquer esforços voltados para a Evangelização, seja numa conversa informal com alguém ou numa programação ou evento deve refletir uma atenção para esta realidade, ou seja, para o fato de que a maior parte das pessoas, especialmente aquelas com um grau maior de esclarecimento, não valoriza ou têm interesse em saber se existe uma Verdade Absoluta. Essa geração não está procurando “a” verdade. Ela está em busca do que é genuíno e autêntico. Longe de querer prestar atenção em nosso discurso já trivializado e inócuo as pessoas apenas querem saber e ver se a experiência cristã, seja em termos individuais ou comunitários, é de fato real.

As pessoas hoje em dia não querem saber de gente que fique lhes dizendo o que elas têm de acreditar ou aceitar como verdade. Aqueles que se apresentam de maneira arrogante, como detentores da verdade são vistos de forma suspeita.

O envolvimento ou participação na comunidade (igreja) deve ser encorajado e visto como essencial no processo de decisão de alguém que esteja considerando a Fé cristã. A exposição pessoal e interação com grupos pequenos e eventos informais devem ser estimuladas. Assim, o processo de conversão de um indivíduo é mais influenciado pelas relações comunitárias do que por uma relação “pessoa-a-pessoa” (o “evangelizador” e o “evangelizado”). As pessoas precisam poder observar e experimentar o amor de Jesus mais do que receber informações sobre esse amor. Para isso é preciso haver autenticidade no que falamos ou fazemos.

Nossos esforços nessa área devem priorizar a atuação de comunidades inclusivas, que recebam as pessoas e dar a elas a oportunidade de observar, do seu próprio jeito, a realidade da Fé cristã. Especialmente nos dias atuais a apresentação do Cristianismo não está nessas pirotecnias “Gospel” que vemos por toda parte, “Marchas para Jesus” ou programas de TV recheados de emotividade e clichês religiosos que não dizem nada. De fato, o que temos observado é um número crescente de pessoas, dentre elas muitos formadores de opinião, querendo distância de tudo e qualquer coisa que “cheire a coisa de Evangélico ou Gospel”. Há poucos dias um dos jornais de maior circulação do país trouxe uma importante matéria sobre o processo de secularização da Europa. Dentre outras coisas o articulista chama atenção para o testemunho de um jovem pintor checo e cantor de um grupo de rock que costuma se apresentar em igrejas. Frustrado com o estado da igreja presente em seu país, ele diz: “Jesus transformou água em vinho, mas os cristãos o transformaram de novo em água.”4

Nossas atividades evangelizadoras só terão efeito realmente duradouro se estiverem associadas a uma comunidade acolhedora que alcança o necessitado, o aflito e também dá espaço para pessoas que estão buscando uma experiência espiritual. Precisamos pensar seriamente sobre isso e fazer de nossas igrejas estruturas menos constrangedoras que permitam ao indivíduo, que esteja buscando e observando, permanecer sem se sentir pressionado pelo ambiente.

Aqueles que se interessam pela evangelização devem prestar atenção ao cenário que se forma, no qual os atores são as ovelhas sem pastor que estão sendo “tatuadas pelas complexidades” dos dias em que vivemos. E, em dias como estes, devemos tomar todos os cuidados para que haja entre nós motivo ou razão para que aqueles que nos observam venham a desdenhar de nós e se distanciar dos caminhos de Deus.

Notas

1. MAINARDI, Diogo. Menos deus, por favor. Veja, São Paulo, 11 jun. 2003, p. 127.

2. BORNHEIM, Gerd. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 jul. 1995.

3. IANNI, Octavio. A sociedade global. Boletim do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião (Pontifícia Universidade Católica), São Paulo, [ANO, Nº], p. 180-181.

4. Ian Buruma. Caderno ALIÁS, Jornal O Estado de São Paulo, 15 de janeiro de 2005, J5.

- - - - - -

Quadro: Mercado de Noche, Nahulá - por Victor Vasquez Temó