sábado, março 25, 2006

Ed René Kivitz -


Está no meu colo já há uns bons dias essas anotações da fala do Ed René Kivitz no evento do Vida Acadêmica , realizado na Bienal do Livro.

Antes de mais nada, quero fazer um disclosure: o cara é muito amigo. Tanto é que a minha primeira escolha, ano passado na mudança para Sampa foi ir pra a IBAB (e de brinde ganhei o Arizão – outro precioso irmão e amigo).

Preciso dizer dessa minha consideração pelo Ed, pois é uma amizade construída no tempo. Uns 15 anos pra mais. Ele vinha à redação de Kerigma para compartilhar seus sonhos e projetos, e eu ficava ouvindo e vez ou outra dava uns pitacos. É impressionante como Deus fervilha sonhos em seu coração, e no ponto de ebulição, deixa subir à cabeça. E daí pra realização é dois palitos. Isso foi no começo dos anos 90. E como amizade é igual a jardim, cultivei desde então.

O outro lado da verdade nessa amizade, é que admirar um cara inteligente, empreendedor e corajoso é fácil. Um cara porém, que une essas qualidades e, talvez por isso mesmo, atue com muito desprendimento no meio evangelical - você admira ainda mais.

Como isso é apenas uma introdução ao post de sua palestra, em outra oportunidade resumiremos seus dados biográficos.

Além da Religião


Palestra realizada no evento VIDA ACADÊMICA - Bienal (14/03/2006)

Notas da apresentação de Ed René Kivitz (em formato livre)*


René Girad é um antropólogo cristão (católico) que através de seus livros nos ajuda a entender aspectos do Cristianismo que vão além da religião. Seus livros – para citar alguns são: Violência e o Sagrado, O Bode Expiatório, Longo Argumento do Principio ao Fim, Eu Via Santanás Cair do Céu como um Raio (Edição Portuguesa).

A maneira como Girard desenvolve sua análise, principia com o 10º mandamento ... “Não cobiçarás ...”. A construção é feita em cima da dominação mimética do ser humano de querer imitar seu próximo, ser igual a ele. É na quebra deste mandamento que geramos tensão e violência. E como o povo peca em conjunto, a violência é coletiva. Somos seres desejantes – sem saber por que, queremos, desejamos, ansiamos, cobiçamos ... Diferente de apetite que é um atributo natural e físico, o desejo vai além. Como um símbolo a ser alcançado, quero imitar o outro. SE eu admiro alguém, vou aspirar ser igual a ele.

A sociedade de consumo sabe trabalhar bem essa mecânica. As propagandas usam o ‘meu ídolo’ que possui, que veste, que tem algo – e esse algo eu vou desejar também. Eu quero igualmente usar, vestir, ter. Apesar de iguais – humanamente falando, nos tornamos rivais pois os objetos de desejo são escassos. A violência coletiva é gerada a partir daí. Por isso de: todos contra todos!

Deixamos de lado nosso objeto de desejo, para dar seqüência à violência. A própria violência é mimética. Não podemos nos satisfazer, então temos que partir para a violência, gerada que foi pelo ponto de tensão.

O senso de sobrevivência propôs um ponto de fuga. Ao invés de todos contra todos, escolhamos um bode expiatório. Sabemos que o problema está na sociedade, mas a forma de resolvermos essa tensão é através do sacrifício de um.

".. e que não pereça toda a nação."

No evangelho vemos em João 11:50 as palavras de Caifás (propondo a solução dentro desse arquétipo) “É melhor que um só morra, para preservarmos a nação” Poderia ser algo assim: “Vocês Os Romanos vão perder a paciência conosco e vão nos aniquilar como nação – é melhor a gente entregar esse homem, e que ele sirva de bode expiatório”.

Há um paralelo aqui com o Édipo que foi castigado e expulso. Um sacrifício para apaziguar os deuses. A paz voltou após isso.

A religião portanto constrói o altar para o bode, e toma o bode para justiça – realizando o sacrifício. O bode é assim divinizado. A sociedade estabelece o rito – o que não é a missa a não ser a repetição do sacrifício de Cristo? O rito é a substituição do fato a ser repetido.

Há nos evangelhos mitos idênticos, com uma diferença substancial – daí que faz do Cristianismo (o verdadeiro) não uma religião. E daí que o outro cristianismo (o não verdadeiro) é uma imitação de atos religiosos.

Nos outros mitos, o bode é culpado, logo sua morte é justificada e bem vinda. Esse bode participou dos problemas, dos erros e das culpas, junto com todo o povo. Então se usarmos o bode – que é igualmente culpado, não estaremos errando de todo, e ainda por cima vamos nos livrar da culpa.

Jesus é o Cordeiro

É exatamente aqui que não podemos nos perder! Por que Jesus não é bode – é Cordeiro! Ele não tem culpa! Diferente do bode ele é inocente! E se o bode fazia parte do povo culpado, já não podemos usar a figura com Jesus, pois ele é inocente como um Cordeiro.

O salmista interpreta e antecipa esse sentimento de Cristo à beira da morte: “Fiz coisas boas, sinais vários. Por que o povo me odeia?”

Em nenhum momento Jesus vem como bode, mas sim como Cordeiro, por ser sinônimo de limpeza, de pureza. E assim se repete ao longo do livro de Atos: “Vocês mataram um inocente” era a pregação recorrente. E mais (no evangelho completo) Deus ressuscita o inocente!

A morte, a última das desgraças, estava associada ao destino imposto pelos deuses. Morrer significava perdedor. Perdedor era o errado, o culpado. Veja o exemplo dos duelos medievais e até alguns séculos atrás: não era para ver quem era melhor (com a espada, como tiro), era para literalmente deixar nas mãos de Deus que a justiça seria feita à maneira dEle!! Deus não ficaria neutro, penderia para algum dos lados, e com certeza para o lado certo!

Davi e Golias foi um duelo. Como Davi poderia perder? O imperador romano já vaticinava: “Quem vai se levantar contra Roma? Os deuses estão do nosso lado!”

Vemos que com Cristo, as coisas mudam. Primeiro por Ele ser inocente. Depois por Deus te-Lo ressuscitado, e em terceiro lugar, porque Deus não estava do lado do algoz. Diferentemente do principio do bode expiatório, Deus se solidariza com a Vida.

Todo sacrifício em nome de Deus é errado

Girard cita I Coríntios 15 como um argumento de que Satanás não tinha idéia do que significava a morte de Cristo, nem da sua ressurreição. Ele foi pego de surpresa. Satanás não participaria do processo do bode expiatório se ele entendesse que não era um bode expiatório – e sim a morte e a ressurreição do Cordeiro inaugurando um novo tempo. Não vai ter mais sangue. A partir de agora Deus vai ficar do lado da vítima. Quem mata, mata Deus. Todo sacrifício em nome de Deus é errado! Porque o sacrifício vitima alguém, e Deus não está mais do lado do sacrifício porque essa era cessou – acabou!

Não dá para sustentar um processo de vitima e de sangue (sacrifício) em nome de Deus ou da religião, pois Deus não quer mais sangue. E Ele vai sempre ficar do lado da vítima.

Quando Jesus morreu, Ele quebra a lógica de vitimar. O Cristianismo (com e no) é o desaparecimento da religião. Esse é o grande fenômeno cristão por excelência!

Uma religião que exige sacrifício é diabólica

Entender a Graça é entender o verdadeiro Cristianismo. Uma religião que exige sacrifício é diabólica. Por isso muitos dos evangelicais precisam ler e estudar Girard. É uma leitura necessária. Uma igreja que vive da culpa e do medo, gera violência e nunca vai ser promotora da paz.

Veja o sermão do monte, e o significado da misericórdia, do pacificador, do amor, da compaixão, da solidariedade. Amar os amigos é fácil, ame os inimigos. Dê a outra face. Ande uma milha a mais, dê a capa e o sobretudo ...

Solidariedade não é para quem merece. É para quem precisa.

Há motivos que nos levam à angustia? Se não passarmos essa angustia por Deus, para Deus, seremos irresponsáveis. Vamos correr o risco de sermos violentos, motivados por raiva, por vingança. Deixamos a angustia dominar nosso coração.

A igreja verdadeira precisa mobilizar um exército de pacificadores e misericordiosos. Há angustia no nosso coração? Essa angustia é a semente de um sonho – é onde vem a esperança. A palavra pastoral: a oração vai regar essa semente. A gente leva para Deus a angustia, e Ele devolve esperança.

*(Anotações feitas e transcritas por Volney Faustini - sem revisão do preletor)

quinta-feira, março 23, 2006

ORA ET LABORA

I ENCONTRO DA IRMANDADE EMÁUS
(formação espiritual, cura, amizade e missão)
Vinhedo SP, de 20 a 23 de abril de 2006 –
Casa de Retiros Siloé – Mosteiro Beneditino

Tema: ORA ET LABORA
A oração como escuta e a missão como projeto de vida

Para quem?
Homens e mulheres comprometidos com o Evangelho de Cristo que desejam vivenciar mais da Espiritualidade Clássica e da Missão Integral.

Palestras:
- Aprendendo com os doutores da Igreja:
Bento de Núrcia, Agostinho de Hipona e Tereza d´Ávila.
- A espiritualidade do feminino

Exercícios espirituais, vivências e grupos:
Lectio Divina, Oração Centrante, experiência de Taizé
Vivências: Liturgica, Eucarística e do Filho Pródigo,
Grupos mentoriados.

Participação:
Enedina Redondo, Isabelle Ludovico da Silva, Gerson Borges, David Alencar, Waldney Carmignani, Ronaldo Perini, Sebastião Molina, Ivo Moreira, Luiz Santos e outros.

Direção Espiritual
Osmar Ludovico da Silva

Inscrições e mais informações escreva para: Ronaldo Perini - prperini@terra.com.br

segunda-feira, março 20, 2006

Luiz Henrique Mello

Este é outro precioso irmão, de longa data e de muitas parcerias e caminhadas conjuntas. Lou, teve ainda bem jovem, a positiva influência de pelo menos três grandes gigantes do evangelicalismo brasileiro: Tio Cássio (seu primeiro pastor-evangelista), Dale Kietzman (mentor da diaconia técnica e precursor da terminologia do Desenvolvimento - a part extra muros das organizações que precisam levantar suporte financeiro), e não menos importante, o Prof. Dr. Russell Shedd (dispensando comentários adicionais).

Na sua conversão teve o acompanhamento da comunidade Cristo Salva de Indianópolis. Na atuação missiológica teve uma participação chave em Portas Abertas. E pra `pegar o rumo` ... fez a Teológica. Depois disso as experiências se multiplicaram - e pelo menos em causos, enriqueceram-no!

Nesta primeira participação em Kerigma Online, Luiz Henrique compartilha aspectos intimos e reveladores da experiência com Thomas, que ele e Dedé como pais Têm vivido.

Missionário, pastor, professor, nerd, consultor de ongs ... das muitas qualificações a que mais tem sentido é a de companheiro de caminhadas.

VF

sábado, março 18, 2006

Cada Dia Será Como Deus Quiser



Por Luiz Henrique Mello


Em termos da experiência envolvendo nosso filho caçula, o Thomas, um cardiopata congênito, há muito a ser dito. Não consigo imaginar, quando vou parar de descobrir novos ângulos relacionados a essa questão.

Creio que, em termos teológicos, o Fábio Adiron foi muito feliz em seu excelente artigo, publicado nesse mesmo blog. Meu acréscimo já foi mencionado em artigo intitulado “Uma Nova Teologia”, publicado em meu Blog. Todo esse acontecimento nos fez repensar nosso sistema de crenças e tratar de alargar as estacas das nossas tendas.

Tentarei abordar esse tema, um pouco mais, pela ótica das sensações, dos sentimentos, do relacionamento e com algumas consequências mais práticas.

A primeira pergunta que veio a minha cabeça quando me comunicaram o veredicto: “Seu filho tem um mal congênito, de natureza grave e complexa no sistema circulatório, principalmente no coração”, foi: “Espera ai, como isso pode estar acontecendo comigo?” Na verdade, estava acontecendo com o Thomas. Eu, minha esposa e os irmãos dele éramos as outras vítimas, atingidos indiretamente.

O primeiro acontecimento interessante foi a reação do pastor de nossa Igreja. Segundo a teologia dele, na época, essas coisas seriam consequência de pecado. Então, procurou-nos em nosso momento de dor, para convencer-nos a pedir perdão por algum pecado nosso oculto, capaz de ocasionar a cardiopatia no Thomas. Sem comentários.

Segundo os médicos que o atenderam logo de início, o problema poderia ser minimizado com procedimentos cirúrgicos, mas, não havia garantias. Se ele superasse as primeiras horas ou dias, as chances de sobrevivência aumentariam. Isso criou, em mim, um sentimento de gratidão jamais experimentado ou imaginado. Cada novo dia ao lado do Thomas é uma dádiva nova de Deus, certamente. No próximo 11 de maio, comemoraremos 18 anos de gratidão.

Minha esposa desenvolveu um sistema de crenças mais elaborado e surpreendente, a partir dai. Certa vez, logo depois do nascimento de nosso filho, estávamos na porta do Colégio Batista para resgatar os dois mais velhos, quando uma mãe se aproximou dela e, com os olhos cheios de lágrimas, perguntou: “Como você está conseguindo suportar isso?” A resposta encheu os meus olhos de lágrimas, quando ela disse: “Eu li em um livro da Corrie Ten Boon que quando ela era pequena e estava assustada por não saber se Deus a livraria de um grande problema, se isso viesse a acontecer, seu pai lhe perguntou: Quando vamos para a capital a que horas compramos a passagem para embarcar no trem? Ao que a menina respondeu: Um pouco antes de entrarmos no trem. Então, continuou o sábio pai, quando e se esse problema chegar, um pouquinho antes, Deus te dará o necessário para enfrentá-lo.” Assim, concluiu minha esposa, eu nunca tinha imaginado a possibilidade de ser mãe de um filho com esse problema ou outro qualquer, mas, um pouquinho antes dele nascer, Deus me deu os recursos necessários para enfrentar essa situação.

Os primeiros cinco dias do Thomas se passaram dentro da UTI do hospital. A equipes de médicos e enfermagem revezavam-se em turnos e criamos um bom relacionamento com eles. Entretanto, uma noite, quando entrei para visitar o Thomas, fui expulso da UTI pela enfermeira chefe que assumira o plantão noturno. Minha primeira reação foi uma mistura de ódio e abandono, de raiva e impotência ou algo assim, mas, surgiu em minha mente um pensamento estranho, mas, consolador de certa forma: Pensei, “ela não sabe o que faz”. Só faltou pedir a Deus para perdoá-la, por isso.

Nesses dezoito anos, foram duas cirurgias de tórax, inúmeros procedimentos invasivos com cateteres (cateterismos), centenas de exames chatos ou doloridos, mas, isso parece ter sido, sempre, o menos importante. Para o Thomas, surgiram limitações de ordem sociais muito importantes. Ele e todos nós, descobrimos que a sociedade não está preparada para conviver com pessoas cujo aspecto fuja demais aos padrões aceitos. Começamos a reparar, como nunca, que há toda uma cultura determinadora dos biótipos aceitáveis ou inaceitáveis. Através da propaganda, principalmente, essa cultura é construída. No mundo da propaganda, das novelas, cinema, revistas, etc, essas pessoas só aparecem para pedir esmolas ou perpetuar seus dramas. Eles não fazem parte da vida cotidiana de ninguém. Parece não haver esse “tipo” de pessoas no ideário dos meios de comunicação. Esse fato, acaba determinando o comportamento da maioria das pessoas em todos os lugares. A primeira instituição que o Thomas teve que abandonar foi a escola. Depois, percebemos não haver lugar para ele e para nós na Igreja, também. Até encontrar trabalho ficou mais difícil. As pessoas, por diversas razões de ordem emocional, não querem contratar o pai, a mãe ou o irmão de alguém com esse problema.

A Internet passou a ser o mundo do Thomas. A imagem que as pessoas têm dele é aquela que ele escolhe divulgar. Então, ai o relacionamento torna-se igual e democrático para ele.

Não sabemos muita coisa, ou não temos muito a dizer sobre o futuro do Thomas. Muito antes de ele vir ao mundo fui preparado para ele através de um filme cujo título era: “Cada dia será como Deus quiser.”. Assim tem sido a vida do Thomas e a nossa. Cada dia pertence ao Senhor. Então, cabe a Ele determinar tudo.

segunda-feira, março 13, 2006

Fábio Adiron


Fábio Adiron Ribeiro é o mais recente integrante da Equipe Kerigma Online. Fábio é um irmão mais que especial - pouco conhecido no mundo evangelical (fora de sua denominação presbiteriana), mas muito conhecido por sua forte atuação e participação nos movimentos de inclusão social e por sua brilhante carreira como especialista, professor e consultor em Marketing Direto.

Oriundo de tradicional família cristã, Adiron é presbitero, estudioso da Palavra e músico de mão cheia (e coração também). Casado e pai de dois filhos, tem vivido uma aventura, pela graça de Deus, com o caçula Samuel, portador de SD.

Abaixo um extrato de um ping-pong com perguntas e respostas para conhecermos um pouco desse precioso irmão.

Como é o seu cuidado com o Samuel?

Os cuidados com o meu filho, são os mesmos que com qualquer outra criança, com duas exceções. A primeira é que ele nasceu com uma cardiopatia congênita (fato que ocorre com mais frequência na SD, mas também acontece com outras crianças sem SD) e, portanto, precisou de cuidados médicos adicionais até ser submetido a uma cirurgia corretiva. Além disso, o que é muito importante para crianças com SD é a estimulação precoce, que nada mais é do que antecipar estímulos para que o desenvolvimento seja o mais próximo do padrão.

Quais experiencias de superações e sentimentos você pode compartilhar conosco?

Eu teria de fazer uma lista. Mas acho que a melhor definição é a seguinte : mesmo sempre acreditando que ele vai fazer as coisas, a gente sempre tem, lá no fundo, um sentimento de que ele vá ser limitado. E quando ele faz e, por conta própria, a gente se surpreende. Eu lembro que uma vez estavámos conversando eu, meu pai e o Samuel. Aí eu falei para o meu pai : "O Samuel já está lendo as letras pequenas...", ele (Samuel), me deu uma cortada e falou : "Pequenas não....minúsculas..."

Você é ativo na questão da inclusão e coordena um grupo de discussão - como é isso?

Nós temos um grupo de discussão com quase 800 pessoas entre pais, profissionais de saúde e educação. As experiências são as mais variadas. Discutimos as dificuldades (qual pai não tem dúvidas sobre a criação dos filhos ?) e as vitórias. Temos momentos felizes e outros nem tanto. Todos passaram pelo choque inicial da notícia, depois por uma fase de busca de culpados. Mas quando descobrem que não é o fim do mundo, vão à luta pelos filhos que amam. Alguns pais demoram um pouco mais para passar pela fase do luto. Raríssimos nunca saem dela. Os que vão em frente são muito felizes.

E o movimento de inclusão, como é essa luta?

A questão da inclusão é uma luta permanente. Quando falamos em inclusão não é preparar nossos filhos para essa sociedade que está aí, mas lutar para que a sociedade se modifique de forma a acolher bem todas as pessoas. Nós queremos transformar a escola, o trabalho, o lazer, em espaços que valorizem a diversidade. Isso incomoda muita gente que está firme e forte no seu status quo.Por outro lado, aqueles que estão se dispondo a se transformar e, assim, transformar o seu meio, estão descobrindo um mundo mais rico e mais valioso. Como diz a Profa Maria Tereza Mantoan da Unicamp : "Inclusão é o privilégio de conviver com a diferença". As pessoas que descobrem esse privilégio , descobrem junto que a vida pode ser muito melhor.

domingo, março 12, 2006

A Bíblia e as Deficiências


Por Fábio Adiron

Não foram poucas as vezes que fui questionado sobre qual a posição que a minha igreja ou a minha religião tem em relação à questão da deficiência e, sempre acabei respondendo que não havia uma posição oficial ou formal a esse respeito. Mas, sendo ao mesmo tempo, presbítero e professor de escola dominical e pai de um menino com síndrome de Down, eu nunca fiquei satisfeito com essa resposta. A minha igreja é uma igreja calvinista que professa o tripé teológico reformado : “sola gratia, sola fides, sola scriptura” (só pela graça, só pela fé, só pelas escrituras), logo, foi justamente nas escrituras que fui buscar uma resposta. O meu texto é longo, porque são muitas as reflexões e são um ponto de partida para quem quer saber o que Deus pensa sobre as deficiências.

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Quem criou a boca do homem ?

Partindo do começo da Bíblia, a primeira referência que encontrei estava em Êxodo 4, muitos podem até pensar que o livro que relata a saída do povo judeu do Egito é só sobre pragas, mandamentos e bezerros de ouro, mas lendo os 12 primeiros versículos desse capítulo encontramos Moisés em frente à sarça ardente, relutando contra o chamado que Deus lhe fazia e, num determinado momento ele diz : “Ah, Senhor! eu não sou eloqüente, nem o fui dantes, nem ainda depois que falaste ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua. Ao que lhe replicou o Senhor: Quem faz a boca do homem? ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego?. Não sou eu, o Senhor? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar.” (Êxodo 4:10-12)

Nesse momento Deus está assumindo a responsabilidade pela deficiência de Moisés. E Ele diz que fez isso intencionalmente! Logo, meu filho não é vítima de um “acidente genético”. Deus é o que fez dessa forma. Mas , o mais interessante é que Deus não vê atraso mental, nem cegueira, nem surdez como uma deficiência. Ele não vê nenhum movimento pelo qual o problema de fala de Moisés pudesse impedir que ele fizesse a obra para qual estava sendo chamado. Deus promete não só acompanhá-lo, mas a ensinar o que a sua boca deveria dizer. O sucesso de Moisés na vida não dependia de suas próprias habilidades, mas de Deus que estaria com ele.

Miquéias 6:8 diz : Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor requer de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benevolência, e andes humildemente com o teu Deus? Não há nada aqui que impeça qualquer pessoa, com ou sem deficiência, de ser bem sucedida diante de Deus. A minha função como pai não é a de preparar os meus filhos (com ou sem deficiência) para ser um membro produtivo da sociedade, mas ensiná-los a respeito da justiça, da bondade e de como caminhar humildemente com Deus.

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Que mais a Bíblia fala sobre deficiências e problemas ?

A Bíblia diz muito mais a respeito de problemas de saúde. Um dos pontos que pais de crianças com algum problema enfrentam é o seguinte questionamento : se você diz que seu Deus é bom, como é que ele permite que essas coisas aconteçam ? Por que é que Ele faz com que a sua vida se torne mais complicada e lhe dá esse tipo de preocupação ? Existem dois patamares em que isso pode ser discutido, o primeiro é porque qualquer pessoa fica doente em algum momento da vida, outro é porque algumas pessoas em particular têm problemas ou deficiências.

Do ponto de vista geral, a Bíblia deixa bem claro porque os homens têm um fim mortal. Por causa do pecado. Quando Deus criou o mundo e o homem não havia doença nem morte. Mas os nossos pais ancestrais, Adão e Eva pecaram, desobedecendo as ordens de Deus (Gênesis 2 e 3) e, nesse momento a morte passou a fazer parte da raça humana, uma herança que cada um de nós recebe ao nascer : “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram.” (Romanos 5:12).

Um pouco mais adiante, no mesmo livro de Romanos, aprendemos que a morte não se aplica somente à raça humana mas a toda criação : “Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora. “ (Romanos 8:20-22)

Todos nós somos afetados. A partir do momento em que nascemos, os efeitos cumulativos de doenças hereditárias, a poluição dos nossos meios de vida, e uma hoste de vírus e bactérias vão destruindo aos poucos o nosso corpo até chegarmos à morte. A doença é apenas o início do processo de morte e é causada porque nós, pessoas, somos pecadores. Você pode até argumentar que não justo que paguemos pelo pecado de Adão, mas não demora muito para que você pratique os seus próprios pecados e essa “pena de morte” é tão certa para você como foi para Adão.
Mas também existem boas notícias. Deus não nos deixa abandonados para morrer. No seu amor Ele desenhou um plano para resolver o problema criado por Adão e Eva. O seu plano se completou finalmente quando Deus mesmo se fez homem e morreu voluntariamente na cruz para pagar a pena de morte que cada um de nós merecia : “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 6:23).

A Bíblia diz mais a esse respeito : “Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós.” (Romanos 5:8), e mais : “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniqüidades ; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós.” (Isaías 53:5-6)

Portanto, a razão pela qual todas as pessoas têm doenças é por causa do pecado. Mas tome um cuidado, o fato de uma pessoa estar temporariamente doente não significa que aquela doença específica foi o castigo por uma “má ação” ou que estar saudável, também temporariamente, indica uma pessoa que está vivendo em “pureza”. Essa falsa teologia da prosperidade não tem nenhuma base bíblica e só serve para confundir as pessoas. A verdade é, todos pecamos, todos vamos morrer, mas Cristo nos garante uma vida eterna através do seu sacrifício na cruz.

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Por quê essa criança tem esse problema ?

Os discípulos de Jesus fizeram essa pergunta em João 9:1-3. Eles se dirigiram a um homem que era cego de nascença e perguntaram : “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (João 9:2). Essa costuma ser uma reação comum ao sofrimento pessoal, pensar que eu estou sendo punido por Deus. Se alguém está doente é porque fez algo errado. Existe evidência a esse respeito na Bíblia, mesmo porque a escritura nos diz que colhemos o que semeamos. Esse homem tinha semeado pecado e estava colhendo sua deficiência ?

Não é raro encontrarmos pais e mães de crianças com problemas se sentindo culpados por essa condição. Acreditam que Deus lhes deu essa criança para que eles reconhecessem os seus erros e se aproximassem mais d’Ele. Pensam que , se eles tivessem sido pessoas mais espirituais, seu filho não teria nascido daquele jeito.

Certamente os pais daquele homem cego não estavam suficientemente próximos de Deus. Afinal de contas , quem realmente está ? Mas a resposta que os discípulos ouviram foi : “Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus.”(João 9:3). Deus queria ser glorificado através da cura daquele homem e o tinha feito cego para que o mundo pudesse ver que Jesus tinha o poder para curar. Que papel fantástico aquele homem teve na história !

Algumas vezes, Deus quer ser glorificado através da cura mas, em muitas outras vezes Ele recebe glória de outra forma. Na segunda carta que Paulo escreve à igreja de Corinto, ele fala a respeito de um “espinho na carne” que o torturava. Ele orava constantemente pedindo a cura desse mal. Claro que Deus poderia ser glorificado caso o curasse mas, nesse caso, Ele queria mostrar outro tipo de poder, o poder de agir através das fraquezas de uma pessoa. A resposta de Deus à oração de Paulo é : “a minha graça te basta, porque o eu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” (2 Coríntios 12:9). Por isso Paulo pode se vangloriar do seu defeito para que as pessoas vissem o poder de Deus agindo através dele. Essencialmente essa é a mesma resposta que Deus deu a Moisés em Êxodo 4. Deus usou um homem que era pesado de língua e de fala para libertar o povo de Israel da escravidão de forma que ninguém pudesse dizer que Moisés tinha feito isso pelos seus méritos, mas pelo poder de Deus.

Eu nunca ouvi falar de uma pessoa com síndrome de Down que tivesse sido “curada”. Deus poderia fazer isso se quisesse. Mas Deus tem sido glorificado mesmo através das pesquisas feitas a partir dessa situação genética específica que é a trissomia 21. Muitas pessoas têm se interessado mais por bioquímica , e é a bioquímica, mais do que qualquer outro ramo da ciência que tem declarado que nós, humanos, somos o resultado de um projeto complexo e não um “acidente evolutivo”. Quanto mais as pessoas pesquisam a incrível complexidade das células, mais elas são levadas a crer que nós fomos maravilhosamente criados. E com isso glorificar o Deus da criação.